A quietação é aroma do desejo
Uma vez mais,
Em vezes sem fim,
Sou eu quem parte,
Sou eu que te liberto de mim.
Entre minhas desunidas mãos,
Escoa-se o inconsolado pranto,
Que apaga os trilhos do teu corpo,
E submerge meu atormentado encanto.
Se não me queres, porque me desejas?
Quando me vesti, depois de nos compor,
Antevi miragens no lugar dos sonhos,
Percebi que te detiveste à entrada,
Que, afinal, é outra a tua estrada.
São corpos fatigados, os nossos,
De mirradas asas, vacilantes no voar,
Somos esperança esbanjada,
Ténues ecos de trovada por terminar.
Se não me desejas, porque me queres?
(Em outra mão me embalo).
Numa vez mais,
De vez, por fim,
Em restaurada utopia sou profeta,
Do que resta de mim.
(Se me desejas…),
De vestes urdidas em perfeitas ilusões,
(Das que perdemos no breve assomo da esperança,
E tornam etérea nossa existência),
Entreabro a portada, de meu divergente mundo.
Em meu leito te acosto,
Em teu grito me deito,
Traço no teu sonho, as linhas do teu corpo,
Em que refaço meu andar.
(Se me queres…),
Na simulada mudez,
Anuncio-me imperfeito,
Sou incontrolada demanda,
Da espúria paixão que arde em meu peito.
Em meus lábios te recebo,
Em teu respirar me encontro,
Por decima, por debaixo, do teu olhar,
Acerco-me, delicadamente, de nós.
(Se me queres, se me desejas…),
Há um fragmento de mim, que te pertence.
A quietação é aroma do desejo.