Saturday, November 22, 2008

A quietação é aroma do desejo


 

Uma vez mais,

Em vezes sem fim,

Sou eu quem parte,

Sou eu que te liberto de mim.

 

Entre minhas desunidas mãos,

Escoa-se o inconsolado pranto,

Que apaga os trilhos do teu corpo,

E submerge meu atormentado encanto.

 

Se não me queres, porque me desejas?

 

Quando me vesti, depois de nos compor,

Antevi miragens no lugar dos sonhos,

Percebi que te detiveste à entrada,

Que, afinal, é outra a tua estrada.

 

São corpos fatigados, os nossos,

De mirradas asas, vacilantes no voar,

Somos esperança esbanjada,

Ténues ecos de trovada por terminar.

 

Se não me desejas, porque me queres?

 

(Em outra mão me embalo).


Numa vez mais,

De vez, por fim,

Em restaurada utopia sou profeta,

Do que resta de mim.

 

 

(Se me desejas…),

 

De vestes urdidas em perfeitas ilusões,

(Das que perdemos no breve assomo da esperança,

E tornam etérea nossa existência),

Entreabro a portada, de meu divergente mundo.

 

Em meu leito te acosto,

Em teu grito me deito,

Traço no teu sonho, as linhas do teu corpo,

Em que refaço meu andar.

 

 

(Se me queres…),

 

Na simulada mudez,

Anuncio-me imperfeito,

Sou incontrolada demanda,

Da espúria paixão que arde em meu peito.

 

Em meus lábios te recebo,

Em teu respirar me encontro,

Por decima, por debaixo, do teu olhar,

Acerco-me, delicadamente, de nós.

 

(Se me queres, se me desejas…),

 

Há um fragmento de mim, que te pertence.

 

A quietação é aroma do desejo.

 

 

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Thursday, November 13, 2008

Sou deserto de letras moribundas em areias movediças


 

Sou deserto de letras moribundas,
Em areias movediças.

(Nas desprovidas palavras que me sobejam,
Desfraldo o tempo apiedado,
Em que meço a frágil distância,
Que me separa do fim).

Sou Quixote amargurado,
Pelejante dos ventos amotinados,
Que constrangem meu verso,
E entravam meu respirar.

Nos poemas espalhados, em folhas caídas,
A loucura, atrofiante, tenta o fósforo aceso,
Ameaçando incendiar todos os manuscritos,
Que, sofridamente, redigi.

(Num só instante me dou,
Ao lume que me queima,
Como se o desejo escondido,
Fosse sonho em chama).

Sou simulacro de poeta,
Disfarçado de inspiração perdida.

(Em sinfonia precisa,
É em mim que vou desaguar).

No destempero das palavras se compõe o meu destino.

Posted by Filipe Campos Melo at 00:02:52 | Permalink | Comments (1) »

O prazer que senti foi o que em ti sonhei


 

 

Desnudado, no ardil da memória,
Lembrei corpo teu,
Quando entregue noutros braços,
Fingia que quem sou, ainda era eu.

Em águas desconformes afundado,
Senti teu suprimido amor,
Como se a mão daquela estranha,
Fosse tua, a única que me acompanha.

A perdição queimou minha alma,
E de ti, e de mim, me afastou.
Pudera eu voltar, a ter-me contigo,
Saber que ainda me pensas em ti.

Queres saber se senti prazer?

Nada sinto. Nada sei.
Acumulo tempos, corpos e enfados.
O prazer que senti,
Foi o que em ti sonhei.

(Recuo, vagarosamente, um passo atrás,
ao tempo desmoronado.

Desfaço o poema antes de o construir,
Encontro-nos.
Sou eu, quase sem ti).

Estendo-te meus braços cansados,
E minhas mãos inquietas.
Meu corpo é presente,
Que já não queres desembrulhar.

Suplico-te, atormentado,
Não partas, não me deixes em mim.

(As lágrimas secas,
E os gritos cansados,
Que na dor vingaram,
Aprestam-se a sair, de mim).

Não sou mais que caos desordenado,
Mera soma de passados empilhados.
Voltejares da infinda dor,
Enlaçados no desejo esgotado.

(Esventrado, na analepse da ilusão,
Invoco, enlouquecido, amor teu,
Quando suspenso noutro braços,
Disfarço de fantasma, corpo meu).

Mas abraço-a, mesmo sabendo que não és tu.
E abraço-me, mesmo sabendo que não sou eu.

Posted by Filipe Campos Melo at 00:01:39 | Permalink | Comments (1) »

Monday, October 27, 2008

Em ti me Poemo

(Evoco todos os horizontes,
De translúcido vermelho ardente,
Em que me rendi, …a ti).

É íngreme a escadaria,
que promete as águas-furtadas.
Onde velas, crepitantes,
aguardam minha chegada. …………………… (E tu).

Desunido, (nos degraus da infame tentação),
Tropeço em meus passos hesitantes,
Ora subindo, ora descendo,
Quase entrando, ……………………………………(Em porta tua).

Aplanado na loucura,
O pecado, partido aos pedaços,
Insano, incessante,
Persegue meu corpo, ………………………(Em teu desejo).

Sou pirómano de ti,
Em tuas chamas me aquento,
Em tua cama de lenha, me deito,
Aguardando teu corpo,
Em que incendeio meu desejo.

(Momentos depois do desejo),

Em teus braços me encosto,
E me escondo,
Das dores que se anunciam,
A que não posso fugir.

No depois do desejo,
Seguras minhas mãos caídas.
Sou cascata de gotas silenciosas,
Derramadas,…………………………………………(Em ti).

Na estertor dos dias,
A panaceia és tu.
Trago a semente da palavra,
E, …
Em ti me poemo.

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Sunday, October 26, 2008

Descer até ti

Descer até ti,
por ti abaixo.

Percorrer todos os teus recantos,
esconderijos do amor.

Encontrar-me, procurando-te,
silenciar a dor.

Gritar a palavra abafada,
sacudir este vazio.

Iluminar a sombra, com o teu sorriso,
conduzido pelo vento aos teus braços.

Esquecer, encontrar, esquecer,
preenche-lo.

Nascer. Uma e outra vez.
Recordar o corpo. Amar.

Subir até ti,
por ti acima.

Deslumbrar-me com o teu olhar,
espelho do meu ser feminino.

Procurar-te, encontrando-me,
acordar o sonho do sono.

Construir escadas, redondas, quadradas, sem forma.
Pontes suspensas. dispersas. entre nós.

Ir ter contigo,
a correr.

Perder-me, na cama ou no chão.
Despir-me. Amar-te.

Posted by Filipe Campos Melo at 02:43:10 | Permalink | Comments (2)

Se quando partires eu já nao estiver aqui, foi porque fugi de ti

Quando partires vou-te abraçar,
Vou me prender em teus braços,
Com toda a força que tenha,
E depois, …vou-te soltar.

(De noite,
o sonho, perplexo, desusado
repete um rosto vazio,
que não consegue descrever).

Quando te fores sem me levares,
Nem vais perceber,
Que fico já só metade,
Que levas uma metade a mais.

(Escoam-se, nos meus dedos
As areias do passado teu.
Na enxurrada das máscaras,
Flutuam desejos escondidos).

Quando saíres de mim,
E com teu destino te fores encontrar,
A saudade será enigma,
se foi loucura e magia,
Como pode o sonho acabar.

(De pena inacabada,
No rescaldo do desejo,
Traço em carvão encantado,
As letras em que te vi).

Quando partires…, vou te abraçar,
E no último instante,
Quando, já sem te tocar, ainda te sentir,
Vou sussurrar,
“Voltarei para te amar”.

Posted by Filipe Campos Melo at 02:40:16 | Permalink | No Comments »

Friday, January 12, 2007

Inquietude

Sempre soube que te encontraria,

Mas só agora percebi que foi por ti que sempre esperei.

De repente, sou menino sonhador.

Deslumbrado. Rendido.

Para sempre, de novo, de vez.


 

Mesmo que estejas de passagem,

Fica.

 

De um espaço para um outro.

Sem pensar. Sem parar.

Da sombra para a cor,

Sem chegar a sair de mim.

 

 Adormeço nos teus olhos.

 

Sonho.

 

Sorridente, grito…

Sou poeta! Sou pintor!

Visto-me das mais belas letras.

Enrolo-me nas telas e nos pincéis.

Desenho-te. Escrevo-te.

Linda. Menina. Mulher.

 

Mesmo que sejas apenas um momento,

Fica.

 

 Acordas-me. 

 

Temo a partida, antes da chegada.

Sou eu quem tu esperas?

 

De repente, sou homem-inquieto.

Frágil. Aterrado.

Não, de novo, sem vez.

As ilusões por que sofro são as melhores que já tive.

 

Os meus dias eram feitos de nada,

Agora são feitos de ti.

Agarro-te.

Não me quero soltar.

 

Do futuro nada sei.

Mas…levanto o véu…

Mesmo que não sejas minha,

Serei teu.

Posted by Filipe Campos Melo at 19:49:03 | Permalink | No Comments »

Saturday, September 23, 2006

Sentado

Estava sentado,

Sentado não, porque embora tivesse os pés no chão e as costas no encosto do assento,

Voava de mim para ti.

Queria sair do ponto morto,

E acariciava o espaço que nos separava como se te tocasse,

Sonhando criar uma nova velocidade que fosse só nossa,

Feita de mim e de ti.


 

Desesperado por perceber que não fui capaz de te tocar,

“Posso falar do que sinto…?”

Não!

Não posso falar, eu sei,

Sinto o teu incómodo e vislumbro, de olhos já abertos, a tua expressão, o murmúrio das palavras que hesitas em dizer,

 O silencioso (doloroso) apelo para que não utilize as letras dessa forma,

A tua sufocante recusa de as ouvir,

Ou de as entender,

Porque não queres, porque não podes, porque não sabes, responder,

…ou por outro motivo qualquer,

Que, por desconhecido, me alimenta a voragem do sonho,

E que, sentado, me faz pensar em fazer do teu lugar um espaço para nós,

…os dois.

A interjeição, a tal sufocante, não cede o lugar ás palavras,

São os teus olhos que falam

(que mar imenso, brilhante, polvilhado de segredos e emoções, de dores e desejos passados, onde me deixaria, comovido, afundar)

E só os consigo ler com o abecedário que me mantém, imóvel, ao teu lado,

Com vontade de saltar para o teu colo e nele embalar, a ilusão

(em que inquieto, siderado, distraído, enganado, passo este meu tempo que é só teu)

Que insiste em ficar e, (vê lá tu…), promete ser eterna.

 

Pateta, apaixonado, não consigo deixar de o dizer:

“És deslumbrante!”,

Foges com o olhar

(porque não podes fugir de outro modo, naquele, neste, momento),

Desces, compassadamente, a tua alma, procuras em ti as razões,

Talvez já te o tenham tido, podem até ser, como são, as mesmas letras,

(todavia, és…)

Mas sou eu que te as digo,

Como nunca as disse a ninguém.

Partes, recusas saber, sentir,

O que sinto por ti.

Mas ás tantas, …Voltas,

(de voz doce e olhar meigo)

Imediatamente me rendo e sinto que não chegastes a sair,

(sinto, acredito, faço de conta).

 

E pareces-me menina, perdida, sonhadora,

À procura do que dizes não existir (mas que pressentes)

- (olha para o teu lado…, sentado) -

E reservas-te.

Falas dos actos na vez das palavras

(mas que são as letras senão gestos?).

E abraço-me, envolvo-me em mim,

(sou feto)

Como se tivesse nascido agora,

(renasci e não quero morrer),

Como se nada soubesse deste mundo, como se nada soubesse de ti,

(e, de ambos, nada sei)

e tudo tivesse a descobrir, como, efectivamente, tenho.

 

Espero-te, sentado, se quiseres vir,

E se não for esse o caso, fica mesmo assim.

Posted by Filipe Campos Melo at 17:52:17 | Permalink | Comments (1) »